“E eu divido o meu sonho porque Mamãe ensinou que a gente deve dividir a pobreza da gente com quem é ainda mais pobre”.
(O Meu Pé de Laranja Lima - José Mauro de Vasconcelos)
Até os sete anos (ou quase isso) convivi com um pé de jasmim. Nessa idade eu acordava cedo por natureza e, aos fins de semana, deixava os cães entrarem na cozinha enquanto mamãe dormia. Eu sabia que nesse horário papai logo chegaria da padaria, mas isso não era problema já que ele, diferente de mamãe, não detestava animais dentro da casa.
Enquanto os cães - eram dois - me faziam companhia, eu observava o chão da cozinha. Tínhamos, na época, uma janela larga com uma parte da vidraça em verde e azul. Pela manhã o sol batia ali e desenhava o piso marrom com borrões de luz em diferentes cores. Eu, entorpecida, sentava no chão para assistir.
Havia uma época do ano em que o jasmineiro florescia e o cheiro adocicado da planta tomava uma parte da casa. Para minha delícia, a cozinha era particularmente afetada e meu passatempo matinal ganhava perfume novo.
Até que a terra do quintal foi dando lugar ao cimento e meus pais decidiram cortar o jasmineiro. O mesmo final categórico, mais tarde, abateu-se sobre meu pé de acerola. Não me lembro de ter chorado em qualquer das ocasiões, apesar de sempre ter sentido revolta.
Talvez por isso tenha ficado tão extasiada ao ler um trecho de “O Meu Pé de Laranja Lima” no livro didático de Português aos nove anos de idade. Senti um enlevo todo especial pela relação entre um menino e uma árvore que o fabuloso José Mauro de Vasconcelos arquitetou.
Há alguns meses comprei esse livro. Confesso que até então nunca o tinha lido por inteiro. Confesso também que comprei muito sem querer, muito por acaso: calhou de cair em frente aos meus olhos uma promoção com a edição mais recente da obra.
Lembrei do meu jasmineiro e do meu pé de acerola. E lembrei que nunca esqueci o trecho do livro didático: tanto que, relendo-o sete anos mais tarde, o reconheci.
De repente resgatamos uma coisa de nossa infância num momento em que estamos amadurecendo muito, e isso nos faz perceber o quando ainda é necessário crescer.

Lindo texto, Lelê. Cada dia mais me vejo presa na selva de concreto e isso vai me torturando aos poucos...
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