Andava com um grupo de amigos pelo bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Não era uma manhã de beleza rara. Talvez o céu já soubesse o que viria a seguir. Num dado e inesperado momento escuto uma amiga gritar meu nome. Atendendo, vou até ela.
_Letícia, olha para baixo.
Não sou do tipo que acha que uma imagem sempre vale mais que mil palavras. Mas, nesse caso, vocabulário me falta. Veja você com seus olhos o que enxerguei com os meus. Eu mesma fotografei a cena para que mais tarde meus amigos e eu tivéssemos a certeza de que não se tratava de um devaneio coletivo.
_Letícia, olha para baixo.
Não sou do tipo que acha que uma imagem sempre vale mais que mil palavras. Mas, nesse caso, vocabulário me falta. Veja você com seus olhos o que enxerguei com os meus. Eu mesma fotografei a cena para que mais tarde meus amigos e eu tivéssemos a certeza de que não se tratava de um devaneio coletivo.
Se precisar legenda: Dois livros dentro de um bueiro.Antes fosse apenas o retrato de um descuido com as obras. Só que pairava ali, sobre aquele bueiro, alguma coisa muito mais profunda. Ele representava, diante do grupo que estava comigo (todos nós estudantes), a situação da educação no país.
Um dos livros, diga-se de passagem, era de Jean Piaget, genial pedagogo suíço que dedicou boa parte da vida ao estudo do desenvolvimento infantil nos processos de aprendizagem. Piaget emprestou seu nome a escolas, cursos e até sistemas de ensino.
Os livros são alicerce para a educação. Sobre eles erguemos as colunas do pensamento crítico, da criatividade, da reflexão sobre si e sobre o outro. Neles encontramos como abrigo o colo quase maternal da língua. Os de literatura, em especial, são envoltos por uma áurea de magia, fantasia.
O grande Lobato dizia que “um país se faz com homens e livros”. Nossos livros estão em bueiros e 33 milhões de pessoas no Brasil entre o analfabetismo e o analfabetismo funcional (2003).
Certa feita o poeta romântico Heinrich Heine escreveu que “onde se queimam livros, acaba-se por queimar homens”. Corrija-me se estiver errada, mas jogar livros em um bueiro ou simplesmente não lê-los - principalmente por parte de quem pode fazer isso - pesa tanto quanto queimá-los.
Meus amigos e eu, bem que tentamos resgatar os livros. Mas foram inúteis os nossos esforços. Pesou-me no peito uma dor de revolta ter que abandoná-los ali. Mais ainda por ter abandonado naquele dia o que eles representavam.
Há tempos chegou a hora de zelar pela educação brasileira, por seus livros, por suas pessoas. Um zelo que precisa partir do estudante, do professor, da família e, claro, dos governantes. Só assim conseguiremos abrir o bueiro. Não aquele do Jardim Botânico, mas o que aprisiona nossos livros em prateleiras. E quando os livros forem salvos eles abrirão mentes para que tenhamos um Brasil de pessoas iluminadas, e não carbonizadas.






