quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Oitava

Ali, naquele ponto de ônibus que não era nada além de uma placa azul, meio torta e enferrujada, uma meia dúzia de pessoas esperava pelo transporte público. Entre elas, duas mulheres já na casa dos oitenta. Nenhum dos rostos suados e sofridos encarava o outro, há não ser pelas senhorinhas, que conversavam.
A primeira, que a despeito do calor usava uma saia longa, com babados, flores, rendas e não sei mais quê, cochichou:
_Dona, valha-me Deus!, onti a fessora elogiô a minha letra.
A segunda, pequena, esquálida, respondeu batendo palmas:
_Ai, que bom! Que bom.
_Mas sabe que tem uma letra que num consigo fazê nem à base da reza braba, irmã!?
E riram uma gargalhada de gosto infantil.
_Mas qual?
_O agá (H) grande...
E, como se fosse uma ordem dos céus, calaram.
Os rostos adiquiriram um ar pensativo, tão sóbrio que chegava a ser tenso. Suspiraram algumas vezes... Alguns ônibus levantaram a poeira da estrada de chão deixando e levando gente.
_Sabe, irmãzinha, acho que o agá maiúsculu é difícil purquê dá umas curvas, aquelas voltas todas... E começa no meio querendo subir... Dalí um pouco cai, e sobe, e cai e enrola... _gesticulava para ilustrar suas palavras.
_E eu num sei disso?! O agá grande é daqueles que num se resolvem nas coisas da vida.
Novamente a conversa foi suspensa. Um ônibus sacolejava rumo à parada. A segunda mulher agitou o braço.
Antes de subir as escadas com alguma dificuldade, presenteou as pessoas paradas ali, sob aquele sol, com uma preciosidade nascida do conhecimento que só os anos conferem as gentes:
_O agá é uma letra morna.

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Esse texto foi escrito (agorinha!) com base na sugestão da Tetê dos blogs www.entre-amigos.myblog.com.br e www.eco-acao.blogspot.com .
Obrigada, Tetê! *.* Gostei tanto da sua ideia! ;*
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O blog continua aberto a sugestões!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Poderes Super

De todos os superpoderes que os heróis dos quadrinhos já me fizeram desejar o mais interessante ainda é, para mim, o supertransporte. Ou qualquer que seja o nome da habilidade maravilhosa de ir de um lugar para outro como em um passe de mágica.
Imaginem o quanto seria útil em termos de economia com passagens de avião, por exemplo. Aliás, substituiria qualquer meio de transporte! Não haveria engarrafamento. E eu poderia dormir mais 30 minutos (e não apenas cinco) sem risco de atraso.
Seria divertida a possibilidade de fugir diante de situações constrangedoras ou compromissos indesejáveis. Nasceria uma nova visão de “reunião social”: Uma em que você pode, simplesmente - PUF! - escapar.
Quando estiver sentado e não quiser levantar da poltrona e andar até a cozinha para beber alguma coisa basta que você - PUF! - já esteja diante da geladeira.
O melhor, no entanto, seria a fuga dos problemas. Esse superpoder, sim, salvaria nossa sanidade. Mas mudar de um lugar para outro na velocidade da luz não faz (até onde meus conhecimentos limitados sobre Física compreendem) com que você deixe de ter contas a pagar, papéis de divórcio para assinar, trabalhos de casa para terminar, relações para discutir, chefes furiosos para agradar, paixões não correspondidas para sufocar...
Ficar invisível ou voar não exterminaria todos os problemas.
Correr como um carro de Fórmula I também não.
Muito menos respirar debaixo d’água ou conversar com animais.
Esses superpoderes nem chegam a propor soluções!
Talvez seja por isso que os meus heróis preferidos não sejam aqueles dos quadrinhos. Meus super-homens e super-mulheres favoritos são os que fizeram da própria vida, com todas as suas dificuldades e limitações, uma busca pela solução dos problemas alheios. Essas pessoas, em sua maioria, usaram poderes que, mesmo sendo fantásticos, nada tem de “super”.
Como a coragem demonstrada por Santos Dumond ao colocar-se nas alturas em uma máquina inovadora, a fé / força de vontade que levou Moisés ao Mar Vermelho ou o altruísmo que se moveu em Miep Gies quando ela abrigou Anne.
Ajudar outras pessoas, de certo modo, nos ajuda muito. Talvez por isso o melhor superpoder consista em ter disposição para olhar o mundo ao redor e ver algo mais que seus próprios problemas.
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ATENÇÃO!
O blog Le F. Leal está pedindo/implorando por sugestões de temas para futuros textos. Deixe sua idéia em um comentário, por favor.
As dicas estão sujeitas a aprovação.
Se sua idéia de tema for aceita seu nome será mencionado em agradecimento na parte final do post.
Grata,
Le.


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Recebi o selinho "Super Fofo" do blog http://www.risosecia.blogspot.com/
Obrigada!
Recebi algumas regras que os outros indicados (casos peguem o selo) devem obedecer também.
- Oferecer o selinho para 7 blogs
http://www.evolutions.zip.net/
http://www.bordelabandonado.blogspot.com/
http://www.labiosflamejantes.blogspot.com/
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http://www.eco-acao.blogspot.com/

- Avisar os indicados;
- Dizer o que achou do selo: Que coisinha carinhosa! rsrs :s

PS: Gostaria de lembrar que se seu blog consta na lista de sites legais você pode usar o award Le F. Leal.

sábado, 28 de novembro de 2009

Dias de Pipoca com Guaraná

É assim - deitada no sofá - que ela pensa na própria vida. Com olhos semicerrados mirando o teto.
Tinha sido um dia duro de um ano árduo de uma época confusa. Sua cabeça fervia com o calor. A casa estava sem luz. Nada se podia ver e tudo era o retrato de muito cansaço.
Ela não precisará acordar cedo amanhã. E não terá que dormir antes da meia noite hoje. Viverá um período de paz e tranqüilidade, com tempo só pra ela. Tempo para seus livros, suas músicas, seus filmes, sua pipoca com guaraná.
Durante dois meses e meio tudo será limpo e claro. Nesse tempo ela terá um Natal gostoso em família. E vai virar o ano na praia, com barulho de mar e vento no cabelo. Brindará suco de laranja em festas de amigos.
A menina pensa tudo isso a respeito do seu futuro. O calor, o cansaço e a escuridão ainda estão lá, ao redor dela. Mas já não a habitam.
E é assim - imersa nas lembranças que ainda não possui - que ela tenta esquecê-lo. Seu inimigo maior. Seu arqui-rival. Aquele que destrói seu ânimo.
O ano letivo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

verdades sobre a madrugada

O melhor horário para escrever é de madrugada. Quando todos estão dormindo, tudo é calmo. A ausência de poluição sonora chega a fazer pensar que a paz não tem nada a ver com utopia. Que amanhã tudo certamente será maravilhoso, mesmo quando você não sabe se verá o amanhã.
Talvez a madrugada seja amiga da arte porque é nesse período de tempo que os sonhos despertam, fogem enlouquecidos das mentes de trabalhadores cansados, de crianças arteiras que dão sossego aos pais, de jovens que passaram toda a tarde com o nariz rente a uma tela de TV.
É de madrugada que você fica a sós consigo. Em nenhum outro momento do dia isso poderia acontecer. Você só reconhece a importância da chuva batendo no telhado e da chaleira sobre o fogão quando a escuridão está a ponto de deixar nascer o sol.
Dá pra ouvir os sons do seu trabalho. O estalar das teclas ou o farfalhar das folhas. O grafite vai deixando sua vida sobre o ofício. A esferográfica esvazia-se. Risc risc risc. Esses sãos os seus ruídos. Ninguém deveria tomá-los de você. São secretos, íntimos.
E como o baile que terminou cedo demais para Cinderela, a madrugada foge de você. As palavras são engavetadas até um próximo período de paz. O escritor volta a ser uma abóbora, uma pessoa comum. Os futuros leitores estão acordando para encontrar no jornal, na livraria ou na internet o sapatinho de cristal do autor, ou o que sobrou dos próprios sonhos fugitivos que você, artista, - gentil e pacientemente - transformou em literatura.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

FOGO! FOGO! FOGO!


Andava com um grupo de amigos pelo bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Não era uma manhã de beleza rara. Talvez o céu já soubesse o que viria a seguir. Num dado e inesperado momento escuto uma amiga gritar meu nome. Atendendo, vou até ela.
_Letícia, olha para baixo.

Não sou do tipo que acha que uma imagem sempre vale mais que mil palavras. Mas, nesse caso, vocabulário me falta. Veja você com seus olhos o que enxerguei com os meus. Eu mesma fotografei a cena para que mais tarde meus amigos e eu tivéssemos a certeza de que não se tratava de um devaneio coletivo.
Se precisar legenda: Dois livros dentro de um bueiro.

Antes fosse apenas o retrato de um descuido com as obras. Só que pairava ali, sobre aquele bueiro, alguma coisa muito mais profunda. Ele representava, diante do grupo que estava comigo (todos nós estudantes), a situação da educação no país.
Um dos livros, diga-se de passagem, era de Jean Piaget, genial pedagogo suíço que dedicou boa parte da vida ao estudo do desenvolvimento infantil nos processos de aprendizagem. Piaget emprestou seu nome a escolas, cursos e até sistemas de ensino.
Os livros são alicerce para a educação. Sobre eles erguemos as colunas do pensamento crítico, da criatividade, da reflexão sobre si e sobre o outro. Neles encontramos como abrigo o colo quase maternal da língua. Os de literatura, em especial, são envoltos por uma áurea de magia, fantasia.
O grande Lobato dizia que “um país se faz com homens e livros”. Nossos livros estão em bueiros e 33 milhões de pessoas no Brasil entre o analfabetismo e o analfabetismo funcional (2003).
Certa feita o poeta romântico Heinrich Heine escreveu que “onde se queimam livros, acaba-se por queimar homens”. Corrija-me se estiver errada, mas jogar livros em um bueiro ou simplesmente não lê-los - principalmente por parte de quem pode fazer isso - pesa tanto quanto queimá-los.

Meus amigos e eu, bem que tentamos resgatar os livros. Mas foram inúteis os nossos esforços. Pesou-me no peito uma dor de revolta ter que abandoná-los ali. Mais ainda por ter abandonado naquele dia o que eles representavam.
Há tempos chegou a hora de zelar pela educação brasileira, por seus livros, por suas pessoas. Um zelo que precisa partir do estudante, do professor, da família e, claro, dos governantes. Só assim conseguiremos abrir o bueiro. Não aquele do Jardim Botânico, mas o que aprisiona nossos livros em prateleiras. E quando os livros forem salvos eles abrirão mentes para que tenhamos um Brasil de pessoas iluminadas, e não carbonizadas.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Não estamos sós



Solidão é aquilo que nos tira as pessoas de dentro pra fora.
Primeiro ficamos tão ocos que não nos damos conta de nossa própria presença. Depois vemos, ou julgamos ver, a ausência alheia. Pensamos que para enfrentar todos os males do mundo estamos sozinhos. Abre-se um buraco negro... E desejamos não ir de encontro a nada. Chegamos ao último estágio da solidão, aquele em que nos isolamos do mundo que uma vez nos abandonou. Mas isso não resolve.
Existem zilhões de motivos para sentir-se só... Dinheiro, família, emprego, sentimentos, estudos, doenças, medo, desilusões... Não nos encaixamos, não encontramos espaço, sofremos com a ignorância dos outros. Quem nunca sentiu isso na pele nos mais diferentes graus? Viver sob o sol e em sociedade implica conhecer a solidão.
Mas tenho que contar uma novidade. Algo maravilhoso e singelo capaz de fazer toda a diferença. É o seguinte: Você não precisa continuar só.
Sempre existiu e sempre existirá um amigo que deseja ajudar em troca de absolutamente nada. É muito provável que ele esteja ao seu lado e você não tenha notado. Você pode não conhecê-lo, não conversar com ele. Pode até ignorá-lo. Mas ele está disposto a te ajudar em troca de... Hm... Qual é mesmo o preço de uma amizade sincera?
Nenhum.
Promoção? Desconto?
Não.
Não há valor. Não há cobrança, juros, impostos, taxas, anuidades, mensalidades.
Tudo o que você precisa fazer é permitir-se amar e receber ajuda.
Quando aprender a amar um amigo ele estará contigo. E com esse amigo verdadeiro por perto você não vai mais sentir solidão.
A amizade sincera oferece chão para os seus vazios e consolo para seus tormentos. Ela pode não te manter respirando, mas insiste em apontar razões para que você continue a viver.
Confie em seu melhor amigo. Acredite que ele não se importa em sacrificar suas noites de sono para ouvir você. Seu melhor amigo quer o seu bem. Ele é capaz de ocupar o papel de irmão em seu coração. Creia que ele realmente o ama porque é isso que fazem os amigos. Se você ama seu amigo deve saber disso.
O meu melhor amigo faz milagres. Você precisa conhecê-lo!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

QUERIDO LEITOR

Num surto criativo produzi esse texto. Ele bem que poderia ser mesmo uma carta para alguém... Se por acaso acha que o destinatário seria você não deixe de me contar.
Ah, ignorem os erros gramaticais & cia. Não corrigi.

***

Querido leitor,
Peço desculpas por não ter escrito muito ultimamente. E mais ainda por não estar escrevendo bem.
Não pense que perdi o talento - se um dia achou que eu o tivesse. Também não fique imaginando que já não aprecio suas leituras... Na verdade, você é o grande motivador (pra não dizer o maior) do meu trabalho.
E nem por um instante se deixe levar pela idéia de que meu apego as palavras era chama passageira, paixão. Porque ninguém se apaixona por Literatura. Ou você a ama ou você não a ama, e pronto, ficamos nisso.
Acontece apenas que de alguns dias pra cá o que já era ruim no País dos Escritores decidiu piorar. Nossos direitos como cidadãos e seres-humanos estão em greve. A ordem, a justiça, a saúde, a compaixão, e até a educação tiraram férias. A honestidade, ninguém sabe, ninguém viu. Dizem que está presa numa conta da Suíça...
Por culpa disso, nós, escritores, temos perdido tempo demais tentando sobreviver. Vai ficando impossível gerar um bom texto(*).
Espero sinceramente que o País dos Leitores esteja melhor, embora algo me diga que tudo acaba dando no mesmo.
Seja como for, aguarde o retorno das figuras de linguagem, do estilo, da boa história, do grande pensamento, da frase marcante. Eles virão, pode apostar.
Até lá, fique com minha maior simpatia.
Le F. Leal.

PS.: (*) As letras todas organizadas são apenas uma gestação artística. O parto do texto vem do leitor, e o cordão umbilical só se corta quando a obra é criticada pelo público.