Ali, naquele ponto de ônibus que não era nada além de uma placa azul, meio torta e enferrujada, uma meia dúzia de pessoas esperava pelo transporte público. Entre elas, duas mulheres já na casa dos oitenta. Nenhum dos rostos suados e sofridos encarava o outro, há não ser pelas senhorinhas, que conversavam.A primeira, que a despeito do calor usava uma saia longa, com babados, flores, rendas e não sei mais quê, cochichou:
_Dona, valha-me Deus!, onti a fessora elogiô a minha letra.
A segunda, pequena, esquálida, respondeu batendo palmas:
_Ai, que bom! Que bom.
_Mas sabe que tem uma letra que num consigo fazê nem à base da reza braba, irmã!?
E riram uma gargalhada de gosto infantil.
_Mas qual?
_O agá (H) grande...
E, como se fosse uma ordem dos céus, calaram.
Os rostos adiquiriram um ar pensativo, tão sóbrio que chegava a ser tenso. Suspiraram algumas vezes... Alguns ônibus levantaram a poeira da estrada de chão deixando e levando gente.
_Sabe, irmãzinha, acho que o agá maiúsculu é difícil purquê dá umas curvas, aquelas voltas todas... E começa no meio querendo subir... Dalí um pouco cai, e sobe, e cai e enrola... _gesticulava para ilustrar suas palavras.
_E eu num sei disso?! O agá grande é daqueles que num se resolvem nas coisas da vida.
Novamente a conversa foi suspensa. Um ônibus sacolejava rumo à parada. A segunda mulher agitou o braço.
Antes de subir as escadas com alguma dificuldade, presenteou as pessoas paradas ali, sob aquele sol, com uma preciosidade nascida do conhecimento que só os anos conferem as gentes:
_O agá é uma letra morna.
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Esse texto foi escrito (agorinha!) com base na sugestão da Tetê dos blogs www.entre-amigos.myblog.com.br e www.eco-acao.blogspot.com .
Obrigada, Tetê! *.* Gostei tanto da sua ideia! ;*
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O blog continua aberto a sugestões!

Obrigada!

Se precisar legenda: Dois livros dentro de um bueiro.

